domingo, 8 de maio de 2011

O Espiritismo e a filosofia da diferença: olhares de amor e aceitação.

Se quisermos alcançar uma melhor compreensão e aceitação do outro
necessitamos rever nossas atitudes de julgamentos.

Hedy Lamar

Como educadora e adepta do Espiritismo, vejo esta doutrina como soberanamente pregadora do Amor, da Compreensão, da Tolerância, da verdadeira Compaixão. E busco, assiduamente, refletir sobre esta Ciência, Filosofia e Religião.
Nessa reflexão, considero que pensar o Espiritismo sob a ótica de alguns filósofos e pensadores modernos é exercitar a Filosofia Espírita, compartilhando-a com outros saberes, especialmente se estes também buscam compreender o homem, na sua individuação e nas suas relações.
Um destes saberes atuais é a Filosofia da Diferença, apregoada por Giles Deleuse. Nuances desta filosofia, em nítida sintonia com a Filosofia Espírita, nos permitem encontrar respostas para algumas questões ligadas às dificuldades de relacionamento, ao julgamento do outro, à ausência de aceitação e respeito pelo diferente.
Nas nossas relações, se quisermos alcançar uma melhor compreensão e aceitação do outro - o que nos possibilitaria melhorar nossa convivência - necessitamos, primeiramente, de rever nossas atitudes de julgamentos, nossas concepções prévias a respeito deste outro.
Quase sempre, usamos nossas velhas maneiras de explicações das nossas falhas e das falhas do outro, repetindo os mesmos modos de agir, de censurar, julgar, e respondendo, do mesmo modo, aos nossos velhos problemas.
Se quisermos ser, sentir, pensar e agir de modo diferente do que sempre temos feito, devemos romper com nossos velhos hábitos, superar nossos possíveis defeitos e construir alternativas que deem novo sentido a nossa existência.
Avaliar o outro, apontar o dedo para suas fragilidades e limitações, sentindo-nos donos da verdade, é fugir da própria responsabilidade, da coparticipação, já que os relacionamentos são vias de mão dupla. Numa relação entre pessoas, existe o entre e não somente a pessoa como si mesma. Cada um entra na relação com sua parcela ... de culpa ou merecimento.
Decididamente, não seres acabados, prontos. A vida toda é um processo, e a realidade, os acontecimentos são revestidos de múltiplas possibilidades. Nada é completamente pronto, definitivo. Nem as pessoas, nem os acontecimentos, nem a vida ... Tudo é um contínuo vir a ser, pleno de possibilidades, de potencialidades. Nesse processo, se queremos transformar o outro, também somos transformados por ele. Não há hierarquias. Nenhum é superior ao outro.
A vida é um palco, um lugar onde não existem certezas. Há apenas o desejo e a permissão para deixar fluir. Tudo é potência. E tudo se realiza, se concretiza no encontro com o outro, com o mundo. Vista como processo, a vida é movimento . . . é uma dança constante ... e precisamos aprender a dançar, embalados pela música que vem do coração.
Precisamos aprender a questionar nossas pretensas verdades. Questionar as noções de certo e errado, normal e anormal que nos foram ensinadas. Sermos capazes de modificar nossas certezas.
Nossa realidade é sempre influenciada pelo modo como a enxergamos. O modo como vemos o outro depende daquilo que somos, ou daquilo que nos transformamos. Se somos pequenos no nosso modo de pensar e de ver o outro, é porque nossas crenças, nosso conhecimento de mundo, nosso modo de amar... tudo é pequeno. Enxergamos o outro com a medida do nosso olhar, com o tamanho da nossa capacidade de amar.
Se queremos modificar nossas relações, nosso modo de conviver, precisamos aprender a mudar nossa maneira de analisar as pessoas, as coisas, os acontecimentos, aprendendo a respeitar as diferenças, em lugar de nos ocuparmos com o idêntico. Não podemos ter o pensamento enclausurado. Nosso modo de fazer as coisas não devem ser uma só. O certo e o errado, desde que não se afaste do que é moral, do que é ético, no sentido de interferência no mundo, não são relevantes na maioria das vezes. A Filosofia Espírita nos aponta caminhos para uma conduta moral. mas não uma Moral desconectada das nossas potencialidades, do nosso jeito de ser e de existir. Importante é o significado que damos às ações, aos acontecimentos. O modo como interpretamos o mundo ao nosso redor, nossas crenças e valores.
Tudo o que acontece não existe por questões individuais, não é responsabilidade de um só. Tudo é apenas efeito, resultado do modo como nos relacionamos. Devemos buscar, sempre, a compreensão, a tolerância, a aceitação e não a mera explicação dos fatos. Não somos meros observadores do outro. Numa relação, somos também intercessores: interferimos, agimos, dialogamos. Numa relação, importa é saber se determinado comportamento ou atitude funciona. Como funciona. Devemos nos perguntar: isso me afeta? Afeta o outro?
As coisas vão adquirindo sentido ao acontecer. Não existe um isso ou aquilo. Pode ser isso, pode ser aquilo. A construção da vida é coletiva. E sempre somos capazes de escapar, de enxergar novas possibilidades, novos rumos. Não temos e não necessitamos de rótulos.
O ser humano não é uma coisa, um objeto formatado. Ele se faz e se refaz, se cria e se recria no dia a dia, no cotidiano. Sendo assim, devemos ser capazes de lutar contra aquilo que nos uniformiza, nos torna idênticos uns aos outros, como se fôssemos máquinas ou desenvolvidas em formas. Não somos cópias uns dos outros. Cada um tem sua singularidade.
Avaliar o outro e apontar sua debilidade é tão devastador quanto permitirmos que nos avaliem. Quando focalizamos a dificuldade como algo que nos pertence, ou que pertence ao outro, estamos desconsiderando nossa rede de relações, e permitimos que ocorra a discriminação, a exclusão. Permitimo-nos, reciprocamente, apontar o dedo, destacando nossas mútuas imperfeições e empalidecendo nossas qualidades, nossos talentos e dons, nossa capacidade criativa.
Devemos ser capazes de exercer nossa criatividade. Somos responsáveis pela orquestração da nossa própria vida, nosso próprio destino. Temos o livre-arbítrio para arquitetar aquilo que sonhamos ser. É só querermos. Basta, apenas, o desejo.
Embora o nosso cotidiano seja regido por regras, códigos, leis, ele também não é desprovido do caos. E nesse aparente caos, ocorre, também, construção. Muitas vezes, precisamos desconstruir, para depois construir algo novo, diferente. Isto se dá num espaço de relações. E é nestas relações que aprendemos a perceber nossos próprios limites: aquilo que estamos deixando de ser e aquilo em que estamos nos transformando. O que somos e o que podemos vir a ser. É nessa espécie de dança interior que nos construímos, nos transformamos e transformamos nossas relações em espaços de harmonia e de beleza.
Este é o olhar que acredito ser respaldado pela Filosofia Espírita. O olhar de uma Filosofia da Diferença que, nos moldes do Espiritismo, parece apontar para uma filosofia do amor e da aceitação.

Texto transcrito, na íntegra, da Revista Internacional de Espiritismo, edição abril de 2011, fls 145,146 e 147.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

DA REENCARNAÇÃO : NO REINO DAS BORBOLETAS

Irmão X
À beira de um charco, formosa borboleta, fulgurando ao crepúsculo, pousou
sobre um ninho de larvas e falou para as pequeninas lagartas, atônitas:
- Não temais! Sou eu... uma vossa irmã de raça!... Venho para comunicar-vos
esperança. Nem sempre permanecereis coladas à erva do pântano! Tende calma,
fortaleza, paciência!... Esforçai-vos por sucumbir aos golpes da ventania que, de quando
em quando, varre a paisagem. Esperai! Depois do sono que vos aguarda, acordareis com
asas de puro arminho, refletindo o esplender solar... Então, não mais vos arrastareis,
presas ao solo úmido e triste. Adquirireis preciosa visão da vida! Subireis muito alto e
vosso alimento será o néctar das flores... Viajareis deslumbradas, contemplando o
mundo, sob novo prisma!... Observareis o sapo que nos persegue, castigado pela
serpente que o destrói, e vereis a serpente que fascina o sapo, fustigada pelas armas do
homem!...
Enquanto a mensageira se entregava à ligeira pausa de repouso, ouviam-se
exclamações admirativas:
- Ah! não posso crer no que vejo!
- Que misteriosa e bela criatura!...
- Será uma fada milagrosa?
- Nada possui de comum conosco...
Irradiando o suave aroma do jardim em que se demorava, a linda visitante
sorriu e continuou:
- Não vos confieis à incredulidade! Não sou uma fada celeste! Minhas asas
são parte integrante da nova forma que a Natureza nos reserva. Ontem vivia convosco;
amanhã, vivereis comigo! Equilibrar-vos-eis no imenso espaço, desferindo vôos sublimes
à plena luz! Libertadas do chavascal, elevar-vos-eis, felizes! Libertadas do chavascal,
elevar-vos-eis, felizes! Conhecereis a beleza das copas floridas e o saboroso licor das
pétalas perfumadas, a delícia da altura e a largueza do firmamento!...
Logo após, lançando carinhoso olhar à família alvoroçada, distendeu o
corpo colorido e, voltando, graciosa, desapareceu.
Nisso chega ao ninho a lagarta mais velha do grupo, que andava ausente,
e, ouvindo as entusiásticas referências das companheiras mais jovens, ordenou, irritada:
- Calem-se e escutem! Tudo isso é insensatez... Mentiras, divagações... Fujamos
aos sonhos e aos desvarios. Nunca teremos asas. Ninguém deve filosofar... Somos lagartas, nada
mais que lagartas. Sejamos práticas, no imediatismo da própria vida. Esqueçam-se de
pretensos seres alados que não existem. Desçam do delírio da imaginação para as
realidades do ventre! Abandonaremos este lugar, amanhã. Encontrei a horta que
procurávamos... Será nossa propriedade. Nossa fortuna está no pé de couve que
passaremos a habitar. Devorar-lhe-emos todas as folhas... Precisamos simplesmente
comer, porque, depois, será o sono, a morte e o nada... nada mais...
Calaram-se as larvas, desencantadas.
Caiu a noite e, em meio à sombra, a lagarta-chefe adormeceu, sem
despertar no outro dia. Estava ela completamente imóvel.
As irmãs, preocupadas, observavam curiosas o fenômeno e puseram-se na
expectativa.
Findo algum tempo, com infinito assombro, repararam que a orgulhosa e
descrente orientadora se metamorfoseara numa veludosa falena, voejante e leve...


-*-
Não guardes antipatia
Paz é luz na vida sã.
Inimigo de hoje em dia
Parente nosso amanhã.


Álvaro Martins


-*-


Por lei celeste possuis
Aquilo em que te desdobras;
Cada pessoa na vida
Descende das próprias obras


Chiquito de Morais


-*-


Não se queixe em circunstância alguma.
Lembre-se de que a vida e o tempo são concessões de Deus diretamente a
você, e, acima de qualquer angústia ou provação,
a vida e o tempo responderão a você com a benção da luz ou com a experiência
da sombra, como você quiser.


André Luiz



IDEIAS E

ILUSTRAÇÕES

FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER

Ditados por

Espíritos Diversos

terça-feira, 3 de maio de 2011

A coroa e as asas


Comentava-se, na reunião, as glórias do saber, quando o Cristo, para ilustrar a palestra,
contou, despretensioso:
— Um homem amante da verdade, informando-se de que o aprimoramento intelectual
conduz à divina sabedoria, atirou-se à elevação da montanha da ciência, empenhando todas as
forças que possuía no decisivo cometimento. A vereda era sombria qual obscuro labirinto; contudo,
o esforçado lidador, olvidando dificuldades e perigos, avançava sempre, trocando de
vestuário para melhor acomodar-se às exigências da marcha. De tempos a tempos, lançava à
margem da estrada uma túnica que se fizera estreita ou uma alpercata que se lhe afigurava inservível,
procurando indumentária nova, até que, um dia, depois de muitos anos, alcançou a
desejada culminância, onde um representante de Deus lhe surgiu ao encontro.
O emissário cumprimentou-o, abraçou-o e revestiu-lhe a fronte com deslumbrante coroa
de luz. Todavia, quando o vencedor do conhecimento quis prosseguir adiante, na direção do
Paraíso, recomendou-lhe o mensageiro que voltasse atrás dos próprios passos, a ver o trilho
percorrido e que, de sua atitude na revisão do caminho, dependeria a concessão de asas com
que lhe seria possível voar ao encontro do Pai Eterno.
O interessado regressou, mas, agora, auxiliado pela fulgurante auréola de que fora investido,
podia contemplar todos os ângulos da senda, antes inextricável ao seu olhar.
Não conteve o riso, diante das estranhas roupagens de que os viajadores da retaguarda
se vestiam.
Aqui, notava uma túnica rota; acolá, uma sandália extravagante. Peregrinos inúmeros se
apoiavam em bordões quebradiços, enquanto outros se amparavam em capas misérrimas; entretanto,
cada qual, com impertinência infantil, marchava senhor de si, como se envergasse a
roupa mais valiosa do mundo.
O vencedor da ciência não suportou as impressões que o quadro lhe causava e abriu-se
em frases de zombaria, reprovando acremente a ignorância de quantos seguiam em vestes ridículas
ou inadequadas. Gritou, condenou e fez apodos contundentes. Dirigiu-se à comunidade
dos viajantes com tamanha ironia que muitos renunciaram à subida, retornando à inércia da
planície vasta.
Após amaldiçoar a todos, indistintamente, voltou o herói coroado ao cume do monte, na
expectativa de partir sem detença ao encontro do Pai, mas o Anjo, muito triste, explicou-lhe
que a roupagem dos outros, que lhe provocara tanto sarcasmo inútil, era aquela mesma de que
ele se servira para elevar-se, ao tempo em que era frágil e semicego, e que as asas de luz, com
que deveria erguer-se ao Trono Divino, somente lhe seriam dadas, quando edificasse o amor
no imo do coração. Faltavam-lhe piedade e entendimento; que ele voltasse demoradamente ao
caminho e auxiliasse os semelhantes, sem o que jamais conseguiria equilibrar-se no Céu.
Alguns minutos de silêncio seguiram-se indevassáveis...
O Mestre, todavia, imprimindo significativa ênfase às palavras, terminou:
— Há muitas almas, na Terra, ostentando a luminosa coroa da ciência, mas de coração
adormecido na impiedade, salientando-se no sarcasmo pueril e na censura indébita. Envenenadas
pela incompreensão, exigentes e cruéis, fulminam os companheiros mais fracos no entendimento
ou na cultura, ao invés de estender-lhes as mãos fraternais, reconhecendo que também
já foram assim, tateantes e imperfeitos... Enquanto, porém, não se decidirem a ajudar o irmão
menos esclarecido e menos afortunado, acolhendo-o no próprio espírito, com sinceridade e
devotamento, não receberão as asas com que lhes será lícito partir na direção do Céu.


Jesus no Lar - Pelo Espírito de Neio Lúcio - Franciso C Xavier

quinta-feira, 28 de abril de 2011

A PONTE

Ei-los na retaguarda.

Não puderam acompanhar o ritmo que a renovação impunha.

Enquanto os Sábios Mensageiros, à maneira de narradores de histórias, falavam das construções celestes, eles se detinham extasiados. Compraziam-se na expectativa de fáceis triunfos, antevendo-se coroados de êxitos nas lutas do caminho comum, sem qualquer esforço nobre.

Supunham que o Espiritismo fosse apenas uma Doutrina Consoladora, cujo mister se resumisse na coleta de náufragos morais e mendigos, para os alentar, enxugando-lhes as lágrimas sem qualquer compromisso de os estimular para o trabalho e o sacrifício.

Esqueceram-se de que a morte física não é o fim.

Olvidaram que além do sepulcro não há repouso nem paraíso, senão para quem converteu a própria paz em paz para os outros e dirigiu a felicidade pessoal para a felicidade de todos.

A morte não apresenta soluções definitivas para problemas que a reencarnação não solveu.

A Terra, por isso mesmo, é o grande campo de realizações, aguardando a dedicação dos lidadores da esperança, do bem e da verdade.

ninguém a deixará livremente, mantendo compromissos com a retaguarda.

Os que ficaram atrás, preferiram o céu fantasioso da ilusão.

Fizeram-se apologistas do heroísmo de mão beijada e pretendem a glória de um trabalho apanagiado por padrinhos terrenos, passageiros detentores do prestígio social e político.

Deixaram à margem os problemas gigantes que defrontarão mais tarde, complicados e insolváveis.

Tentaram o recuo à hora do avanço e se detiveram a distância.

Não os incrimines nem os lamentes.

São almas fracas, incapazes de uma resistência maior.

A vida, a grande mestra, com mãos de mãe devotada e gentil, conduzí-los-á de retorno à realidade, da qual ninguém foge impunemente.

Segue adiante, porém.

Esquece a fantasia das narrativas atraentes e enfrenta o campo que se desdobra convidativo.

Aqui, concede a benção de uma fonte e o deserto se converterá em jardim.

Ali, remove o charco, e o pântano se transformará em horta dadivosa.

Acolá, afasta as pedras, e a estrada surgirá oferecendo fácil acesso.

E faze o bem em toda a parte, com as mãos e o coração, orando e esclarecendo, a fim de que o trabalho da verdade fulgure em teus braços como estrelas luminescentes em forma de mãos.

E, ligado aos Espíritos da Luz, construirás, com o suor e o esforço incessante, enquanto na carne, a ponte sobre o abismo, pela qual atravessarás, em breve, formoso e deslumbrado, em busca dos amores felizes que te aguardam, jubilosos, “do outro lado”.

(Página recebida pelo médium Divaldo P. Franco,
na noite de 21-6-61, em Salvador, Bahia)
Brasil Espírita
- Julho de 1971

terça-feira, 26 de abril de 2011

CHICO XAVIER E UM CASO DE PERDÃO

49 - As Providências do Perdão

P - Ao transmitir, caro Chico, sua mensagem final aos irmãos de fala Castelhana, rogamos-lhe a gentileza de narrar-nos um dos inúmeros fatos mediúnicos que o sensibilizaram no correr das suas quatro décadas de tarefas ininterruptas de mediunidade com Jesus.

R - Das experiências de nossa tarefa mediúnica, citaremos uma delas, para nós inesquecível.

Nos arredores de Pedro Leopoldo, há anos passados, certa viúva viu o corpo de um filho assassinado, chegando, repentinamente à casa. Desde então, chorava sem consolo.

O irmão homicida fugira, logo após o delito, e a sofredora senhora ignorava até mesmo porque o rapaz perdera tão desastradamente a vida. Agravando-se-lhe os padecimentos morais, uma nossa amiga, já desencarnada, D. Joaninha Gomes, convidou-nos a ir em sua companhia partilhar um ligeiro culto do Evangelho, com a viúva enlutada.

A desditosa mãe acolheu-nos com bondade e, logo após, em círculo de cinco pessoas, entregamo-nos à oração.

Aberto em seguida "O Evangelho segundo o Espiritismo", ao acaso, caiu-nos sob os olhos o item 14 do Capítulo X, intitulado "Perdão das Ofensas".

Ia, de minha parte, começar a leitura, quando alguém bateu à porta. Pausamos na atividade espiritual, enquanto a dona da casa foi atender. Tratava-se de um viajante maltrapilho, positivamente, um mendigo, alegando fome e cansaço. Pedia um prato de alimento e um cobertor.

A viúva fê-lo entrar com gentileza, a pedir-lhe alguns momentos de espera. O homem acomodou-se num banco e iniciamos a leitura. Imediatamente depois disso, comentamos a lição de modo geral. Um dos assistentes perguntou à dona da casa se ela havia desculpado o infeliz que lhe havia morto o filho querido, cujo nome passou, na conversação, a ser, por várias vezes, pronunciado.

A viúva asseverou que o Evangelho, pelo menos, lhe determinava perdoar. Foi então que o recém-chegado e desconhecido exclamou para a nossa anfitriã:

- Pois a senhora é mãe do morto?

E, trêmulo, acrescentou que ele mesmo, era o assassino, passando a chorar e a pedir de joelhos.

A viúva, igualmente, em pranto, avançou maternalmente para ele e falou:

- Não me peça perdão, meu filho, que eu também sou uma pobre pecadora.. Roguemos a Deus para que nos perdoe!...

Em seguida, trouxe-lhe um prato bem feito e o agasalho de que o desconhecido necessitava. Ele, entretanto, transformado, saiu do Culto do Evangelho conosco e foi-se entregar à Justiça.

No dia imediato, Joaninha Gomes e eu voltamos ao lar da generosa senhora e ela nos contou, edificada, que durante a noite sonhara com o filho a dizer-lhe que ele mesmo, a vítima, trouxera o ofensor ao seu regaço de Mãe, para que ela o auxiliasse com bondade e socorro, entendimento e perdão.

Retirado do livro "Entrevistas" - Chico Xavier/Emmanuel respondem...

sábado, 23 de abril de 2011

Jesus para o homem



“E achado em forma como homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte, e morte de cruz.” – Paulo. (Filipenses, 2:8)

O Mestre desceu para servir,
Do esplendor à escuridão...
Da alvorada eterna à noite plena...
Das estrelas à manjedoura...
Do infinito à limitação...
Da glória à carpintaria...
Da grandeza à abnegação...
Da divindade dos anjos à miséria dos homens...
Da companhia dos gênios sublimes à convivência dos pecadores...
De governador do mundo a servo de todos...
De credor magnânimo a escravo...
De benfeitor a perseguido...
De salvador a desamparado...
De emissário do amor à vítima do ódio...
De redentor dos séculos a prisioneiro das sombras...
De celeste pastor à ovelha oprimida...
De poderoso trono à cruz do martírio...
Do verbo santificante ao angustiado silêncio...
De advogado das criaturas a réu sem defesa...
Dos braços dos amigos ao contato de ladrões...
Do doador da vida eterna a sentenciado no vale da morte...

Humilhou-se e apagou-se para que o homem se eleve e brilhe para sempre!

Oh! Senhor, que não fizeste por nós, a fim de aprendermos o caminho da Gloriosa Ressurreição no Reino?


Autor: Emmanuel
Psicografia de Chico Xavier. Do livro: Pão Nosso

Que possamos buscar a cada dia o caminho da "Gloriosa Ressurreição", fazendo nascer o novo homem...
A Fraternidade Oficina do Amor, deseja uma feliz Páscoa.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

O juiz reformado

Como houvesse o Senhor recomendado nas instruções do dia muita cautela no julgar, a
conversação em casa de Pedro se desdobrava em derredor do mesmo tema.
— É difícil não criticar — comentava Mateus, com lealdade —, porque, a todo instante,
o homem de mediana educação é compelido a emitir pareceres na atividade comum.
— Sim — concordava André, muito franco —, não é fácil agir com acerto, sem analisar
detidamente.
Depois de vários depoimentos, em torno do direito de observar e corrigir, interferiu Jesus
sem afetação:
— Inegavelmente, homem algum poderá cumprir o mandato que lhe cabe, no plano divino
da vida, sem vigiar no caminho em que se movimenta, sob os princípios da retidão. Todavia,
é necessário não inclinar o espírito aos desvarios do sentimento, para não sermos vitimados
por nós mesmos. Seremos julgados pela medida que aplicarmos aos outros. O rigor responde
ao rigor, a paciência à paciência, a bondade à bondade...
E, transcorridos alguns instantes, contou:
— Quando Israel vivia sob o governo dos grandes juízes, existiu um magistrado austero
e violento, em destacada cidade do povo escolhido, que imprimiu o terror e a crueldade em
todos os serventuários sob a sua orientação. Abusando dos poderes que a lei lhe conferia, criou
ordenações tirânicas para a punição das mínimas faltas. Multiplicou infinitamente o número
dos soldados, edificou muitos cárceres e inventou variados instrumentos de flagelação.
O povo, asfixiado por estranhas proibições, devia movimentar-se debaixo de severa fiscalização,
qual se fora rebanho de bravios animais. Trabalharia, descansaria e adoraria o Senhor,
em horas rigorosamente determinadas pela autoridade, sob pena de sofrer humilhantes
castigos, nas prisões, com pesadas multas de toda espécie.
Se bem mandava o juiz, melhor agiam os subordinados, cheios de natural malvadez.
Assim foi que, certa feita, dirigindo-se o magistrado, alta noite, à casa de um filho enfermo,
foi aprisionado, sem qualquer consideração, por um grupo de guardas bêbedos e inconscientes
que o conduziram a escura enxovia que ele mesmo havia inaugurado, semanas antes. Não
lhe valeram a apresentação do nome e as honrosas insígnias de que se revestia. Tomado por
temível ladrão, foi manietado, despojado dos bens que trazia e espancado sem piedade, afirmando
os sentinelas que assim procediam, obedecendo às instruções do grande juiz, que era
ele próprio.
Somente no dia imediato foi desfeito o equívoco, quando o infeliz homem público já havia
sofrido a aplicação das penas que a sua autoridade estabelecera para os outros.
O legislador atribulado reconheceu, então, que era perigoso transmitir o poder a subalternos
brutalizados e ignorantes, percebendo que a justiça construtiva e santificante é aquela
que retifica ajudando e educando, na preparação do Reinado do Amor entre os homens.
Desde a singular ocorrência, a cidade adquiriu outro modo de ser, porque o juiz reformado,
embora prosseguisse atento às funções que lhe competiam, ergueu, sobre o tribunal, a
benefício de todos, o coração de pai compreensivo e amoroso.
Lá fora, brilhavam estrelas, retratadas nas águas serenas do grande lago. Depois de longa
pausa, o Mestre concluiu:
— Somente aquele que aprendeu intensamente com a vida, estudando e servindo, suando
e chorando para sustentar o bem, entre os espinhos da renúncia e as flores do amor, estará
habilitado a exercer a justiça, em nome do pai.

Jesus no Lar
Pelo Espírito de Neio Lúcio
Psicografia Franciso C Xavier

sexta-feira, 15 de abril de 2011

DO CULTO CRISTÃO NO LAR : JESUS MANDOU ALGUÉM


Hilário Silva
O culto do Evangelho no lar havia terminado às sete da noite, e João Pires, com
a esposa, filhos e netos, em torno da mesa, esperava o café que a família saboreava
depois das orações.
Ana Maria, pequena de sete anos, reclamou:
- Vovô, não sei porque Jesus não vem. Sempre vovô chama por ele nas preces:
“Vem Jesus! Vem Jesus!” e Jesus nunca veio...
O avô riu-se, bondoso, e explicou:
- Filhinha, nós, os espíritas, não podemos pensar assim... O Mestre vive
presente conosco em suas lições. E cada pessoa do caminho, principalmente os mais
necessitados, são representantes dEle, junto de nós... Um doente é uma pessoa que o
Senhor nos manda socorrer, um faminto é alguém que Ele nos recomenda servir...
D. Maria, a dona da casa, nesse momento repartia o café, e, antes que o vovô
terminasse, batem à porta.
Ana Maria e Jorge Lucas, irmão mais crescido, correm para atender.
Daí a instantes, voltam, enquanto o menino grita:
- Ninguém não! É só um mendigo pedindo esmola.
- Que é isso? – exclama a senhora Pires, instintivamente – a estas horas?
Ana Maria, porém, de olhos arregalados, aproxima-se do avô e informa,
encantada:
- Vovô, é um homem! Ele está pedindo em nome de Jesus. É preciso abrir a
porta. Acho que Jesus ouviu a nossa conversa e mandou alguém por Ele...
A família comoveu-se.
O chefe da casa acompanhou a netinha e, depois de alguns instantes, voltaram,
trazendo o desconhecido.
Era um velho, aparentando mais de oitenta anos de idade, de roupa em
frangalhos e grande barba ao desalinho, apoiando-se em pobre cajado.
Ante a surpresa de todos, com ar de triunfo, a menina segurou-lhe a mão direita
e perguntou:
- O senhor conhece Jesus?
Trêmulo e acanhado, o ancião respondeu:
- Como não, minha filha? Ele morreu na cruz por nós todos!
E Ana Maria para o avô:
- Eu não falei, vovô?
O grupo entendeu o ensinamento e o recém-chegado foi conduzido à poltrona.
Alimentou-se. Recebeu tudo o que precisava e João Pires anotou-lhe o nome e endereço
para visitá-lo no dia seguinte.
Antes da despedida, a pequena dormiu feliz, e, após abraçar o inesperado
visitante, no “até amanhã”, o chefe de família, enxugando os olhos, falou, sensibilizado:
- Graças a Deus, tivemos hoje um culto mais completo.

-*-
Caridade, onde estiveres
Lenindo as dores de alguém,
Onde sirva, onde fales,
Jesus estará também.
Auta de Souza

-*-
Vi hoje a felicidade...
Ela sorria a caminho,
Na mãe pobre que encontrava
Um pão para o seu filinho.
Antonio de Castro

-*-
Não basta confiar em Jesus; é necessário que Jesus também possa confiar em
você.
Irmão X



IDEIAS E
ILUSTRAÇÕES
FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
Ditados por
Espíritos Diversos